19 de maio de 2009

A Noite espera



banho quente e o desejo
espelho confessa o lado carnal
a mente escorre do beijo
ferve o corpo animal

cem roupas na prova
fragrâncias no batedor
o desejo renova
ambição e fervor

um cigarro a meio
uma música de fundo
tem o peito cheio
para agarrar o mundo

aumenta a batida
supõe-se o desfecho
exalta-se a vida
num breve trecho

o último olhar, demora
o pensamento fascina
o frenesim está lá fora
de ouro e platina

confiante e apressado
instinto de fera
com manto decorado
a noite está à espera

Vampirizar


Adoro Vampiros. O poder com que manipulam, a força muscular que não tem limites, a velocidade graciosa na caça, a sensualidade que demonstram na corte e na aproximação, o frio dos corpos que pálida torna as faces, a imortalidade e a superioridade incontestável de nos tornar inextinguíveis. Mas confesso que a minha sedução paralisa de deleite e terror quando imagino o momento exacto de ser sugado, será um momento controverso com certeza, ninguém se zanga se imagino dentes aguçados cravados em alma feminina, é que não consigo idear se não uma vampira sedenta do meu sangue, sedenta de mim, que depois da prova se vicia e morre de amor para sempre, ela imortal, eu imortal, alimento um do outro como forma única de prolongar o fogo, a luz e ultimar o enlace no princípio do infinito. Tenho o meu lado cupidinoso, como tal aponto as minhas flechas untadas no melhor sangue e disparo... Para agora sim, sermos felizes para sempre...

17 de abril de 2009

Está na hora


Está na hora, nada melhor que esta corrente nebulosa, um pouco angustiante que se abateu sobre as nossas cabeças, mas não caiu pesada e de repente, vem lenta e poderosa e desta forma tem mais impacto, sofremos mais tempo, entranha-se devagar e penamos. Digo eu que está na hora porque não podemos mais viver encolhidos neste cerco que se aperta, empurrado por poucos e onde muitos se amontoam e sofrem. Passamos tempo de mais a escolher as armas e tempo de mais a pensar como lutar. Dos mais prevenidos até aos consumistas todos têm menos e este menos não é só dinheiro, e o tempo em família e a insegurança no trabalho e o lazer com qualidade como forma de equilíbrio e as solidões impostas que quebram laços de amizade, e quase todos parecem encontrar forma de se "habituar" a este caos instalado, que no meu entender é um erro em forma de carta branca para que, o que nos rodeia fique na mesma, ou pior?
Está na hora de fazer uma reflexão, olhar para futuro dos nossos filhos, com olhos que não se limitem à situação económica. Concordam comigo que ninguém quer que os filhos, carne da nossa carne e sangue do nosso sangue, siga este rumo a pique para o abismo, esta sede de ambição que está na base do mundo violento e ganancioso, a submissão que hoje impera como resultado de pressões, a hora de jantar que nem sempre tem pai e mãe, as tertúlias entre amigos ou o café no fim da tarde são passado, os "hobbies" que nos fazem mais nós, ficaram para "tempos melhores".
Está na hora de parar, olhar para trás e pensar se realmente ganhamos ou perdemos, se é esta a vida do "sonho", pois é, já não sonhamos, o sonho ficou para poucos. Como costumo ouvir: "...que não falte o trabalhinho e que o dinheiro chegue ao fim do mês...". Um povo que se revoltou há 35 anos perdeu memória, perdeu a luz. O conformismo, a necessidade e o medo vão fazer de "nós" mais pequenos e mesquinhos e eles(filhos) crescem e aprendem com o que vêem!!!.
Está na hora...

22 de março de 2009

PARTIDAS


Sem dormir, encheu-se de coragem, tomou um duche e saiu. Dia cinzento com ar frio e húmido, andar oscilante, próprio de quem precisa de descanso, sem que isso se torne penoso segue até ao carro com a mente leve e transparente, procura nos seis bolsos possíveis a chave, como habitualmente está no último, entra, cinto, cigarro, U2 e vidro entre-aberto pois esta brisa fresca dos primeiros dias de primavera é irrepetível e dura três ou quatro dias, tem cheiro a mar e anuncia o renascimento da terra.
Estrada fora, rolando devagar porque adiantou-se ao relógio, estranha-se porque não é pontual. A ansiedade aumenta ligeiramente, segue todas as placas que dizem aeroporto sem desvios ou hesitações, a sensação de dejá-vu parece antecipar o destino... Engana-se na entrada do parque de estacionamento, mais uma volta e desta pára o carro.
Conscientemente dirige-se para o piso das chegadas, sabe que ela vai partir, mas tenta decifrar a reacção que terá: pressionada, feliz, surpreendida, maravilhada ou espantada. Gasta o tempo nestes pensamentos enquanto bebe um café sentado no snack-bar que está de frente para quem chega de altos voos. Reconhece valor e paixão no que está a fazer, dá o derradeiro gole e sobe...
Sabia que era ali que, mais minuto menos minuto a veria outra vez, não a via há muito tempo, porque duas horas e trinta minutos é tempo infinito para tanta vontade! Sentou-se no lugar mais discreto, neste momento a ansiedade misturada com alegria eram um monstro de tamanho. Já estava no lugar certo porque não se perdem aviões, às vezes perdem-se comboios, autocarros e até amor de uma vida, mas aviões nunca, ele sabia que ela chegaria para partir. O nervosismo comandou-o até ao ar livre, mais um cigarro rápido, entrou de novo, olhou para o relógio e foi à descoberta do local exacto do chek-in. Perdido naquele espaço amplo, cabeça levantada e em voo mental, tenta entender aqueles quadros digitais, repara que a porta de embarque é a 18 e que o sítio para despachar as malas são o 57 e 58, inspira de alívio e desejo. Mudou de lugar, não era assim tão discreto e sentou-se ao longe com olhar cravado nas portas giratórias...
Entrou, cabelo apanhado, que realça os desenhos do rosto, caminhar seguro e um pouco acelerado, camisola clara e ganga, roubou todas as luzes disponíveis e em seu redor tudo escureceu. Ele via tudo sem turvar, contemplou e de seguida procurou o telemóvel e telefonou... A conversa não ouvi, mas vi, ele com passos inseguros aproximou-se, ela deixou para trás o 58 e dirijiu-se para ele, pararam cara-a-cara, beijaram-se na face, conversaram um ou dois minutos, ela surpresa, ele feliz, beijaram-se outra vez... E visto aqui de cima digo-vos: muito melhor do que na sétima arte. Viraram costas, ele já conta as horas para a ver de novo, ela não sei...

15 de março de 2009

TU


Começo a sentir que os dias têm reticências, não se fecha o ciclo e falta tudo o que deve ter para que outro possa começar, Tu. Nos dias que te vejo sinto o mesmo, fico suspenso nos Teus olhos e na Tua boca, depois carrego a imagem sem peso e continuo a achar que a noite não acaba e o dia não começa. Sinto-me imperfeito sozinho, morre metade de mim e metade de Eu mesmo é pouco, custa carregar uma metade inerte, cortas-me a meio quando vais. Quando puder ver-te todos os dias vou querer ser imortal para que nada acabe, vou querer não contar os dias nem as noites e num toque Te torno imortal também. Depois nem vida somos, somos sempre e para sempre, vamos intemporais sem embaraço, existimos nós dois num só, um sol e Tu lua, dou-Te o calor do dia e Tu dás-me a elegância da noite, sem horas sem tempo sem morte. Não temo o dia seguinte porque num qualquer vais lá estar e Eu vou viver inteiro outra vez. Só por Ti. Não Me adies.

4 de março de 2009

BALCÃO


Cinco lugares. Um balcão. Abrótea assada, jardineira, lasanha, quiche de frango e tarte de atum. Cinco pratos.
O Senhor Gonçalves ou "tio", é assim que toda a gente o chama, acanhado de corpo com pernas arcadas, cabelo branco, bigode farto e olhos de criança, tem sempre alegria que dispara gratuitamente, na anedota ou no comentário é sempre incisivo. A Dona Fátima ou "Fatinha", viúva de preto, óculos pendurados na ponta do nariz, cara miudinha com queixo bicudo e sorriso que faz parte do conjunto, adora as piadas do "tio" e responde com aquela maldade que sabe bem, corpo cheio que acaba agudo de tão pequeninos pés. O Senhor Paulo ou "Paulinho", fato e gravata, o mais novo da fila, tez morena, cabelo meio esfrangalhado, nariz bico de papagaio, ar de galanteador, sorriso franco, mais ouvinte que locutor, dá atenção a todos. A Margarida ou "Gui", a roçar os quarenta, olhos verdes de mar, pele morena de base, cabelo preto brilhante de cabeleireiro, dentes brancos como folha em branco mas lustrada, partilha o cheiro a perfume para lá do balcão, suspira pelo fato e pela gravata, gosta da conversa apimentada. O António ou "Toni", calvície precoce, fraldas por fora das calças e sacola ao ombro, um verdadeiro homem da informática, temperamento sereno, informal e relaxado, é contraponto e marcador de tempos.
A oralidade corta obliquo: jornais, música, meteorologia, afectos, interesses e às vezes sexo! Desorganizados tem horas que se fazem três ou mais conversas, encavalitadas! Escassei-a o mastigar e os pratos resfriam.
O relógio empurra os ponteiros, durante cinquenta e cinco minutos estes cinco mundos fundem-se, unem-se com os cotovelos colados no balcão. Não há tempo a perder e sem querer e sem forçar são todos positivos, diferentes e jubilosos. O segredo está na diversidade e na tolerância. Não há tempo a perder mas amanhã repete-se?! Sim, mas amanhã vem longe...

2 de março de 2009

E Depois do Adeus

Hoje faço 35 anos de idade, não resisti a uma breve incursão pelas memórias, no entanto não escolhi nenhuma das minhas, escolhi antes uma memória da minha mãe "...no dia que tu nasceste estava a dar o Festival da Canção, e a música que representou Portugal foi do Paulo de Carvalho (E depois do Adeus), que um mês e pico mais tarde foi a música da revolução dos cravos...". Para uma esquerdista de luta e de ideais isto tem um sentido abrangente, para mim também, não por estar consignado mas porque a letra da música levanta questões, emoções e deixa reticências para o rumo da vida. Acompanha-me estes anos todos e é um prazer renovado ouvi-la...

versão original do festival em 02 Março de 1974

27 de fevereiro de 2009

AO VIVO


Alguns sentados nos muros, outros em grupos de pé, muitos ansiosos. O alarde corre por entre corpos, motim mal organizado, fumo de cigarros e fumos com fragrância das Índias, esvaziam-se no ar da noite. Mãos coladas em garrafas de cerveja e boa disposição. Conversas insuficientes, não que sejamos todos tolos, mas a cabeça já se matriculou num curso que durará duas horas, onde somos alunos, professores e matéria. Alguém grita mais alto o nome de alguém, olhamos e sorrimos mesmo antes de olhar porque sabemos que é um dos "nossos", não falha! Camisola preta com o nome gravado em letras brancas, mais um faz sempre falta! Em bicos de pés reparo no que me rodeia, satisfaz-me os milhares, idades muitas, família que se veste parecido, com um fim claro: dar tudo e receber tudo. Abriram as portas...
Um dia gostava de filmar as caras, espera-los lá dentro para ver o que vejo em mim e o que consigo ver nos que me estão mais próximos: a emoção contida a transbordar, o orgulho de ser fragmento, a alegria da primeira vez, o ar apressado para encostar nas barreiras e a certeza que vamos fazer parte. A entrada é um momento que gosto particularmente, o frenesim estrondoso de uma massa humana, o deslumbramento com a sala, mesmo que seja a trigésima vez que lá entramos, os sons da acomodação anárquica e os olhares perplexos a constatar o momento. Corta-se o cordão que nos liga ao mundo e passamos a ser um "gigante". Apagam-se as luzes...
Momento de silêncio que dura um milésimo de segundo, depois, os gritos guardados, os assobios, as mãos no ar e as vozes nossas que ecoam até ao tecto e voltam. A delonga está no fim e até esse instante é delícia. Acendem-se todos os focos e os primeiros acordes rebentam...
Agora somos sons, somos movimento desordenado que olhado de cima é perfeitamente simbiótico, somos ouvidos sem filtro, somos poros abertos a transpirar e a sugar, somos boca e garganta de mil notas, somos corpo em erupção, somos o palco do palco. Mais uma vez olho em meu redor, faço-o sempre num refrão poderoso e conhecido ou num momento de uníssono, vejo fulgor e a vontade burlesca de todos em participar de uma forma marcante, vejo calor e as faces brilhantes de exaltação, vejo comunicação e energia lançada para o palco e rebatida para o povo. Sinto-me feliz e no correr do tempo, salto, grito, canto, aplaudo e vivo muito... A última nota, a despedida calorosa e arrepiante que faz crer que podia começar tudo de novo! Acendem-se as luzes do fim...
Corpos suados e lentos, cambaleiam para a saída. Vozes fracas e roucas, poucas, porque a memória ainda junta tudo e a vontade é de lembrar. Olhos vidrados de encantamento. Zumbido que atenua o rigor de voltar à generalidade. Desaparecemos vultos pelas ruas...

22 de fevereiro de 2009

Sem fim...


És tu. Sim tu. Que abres os olhos e lês estas letras atadas com laços de ferro. Tu que me forças a mente e me atolas as mãos. Tu que fazes de mim escravo da delícia do texto. Tu que tens meus braços como marionetas e jogas com eles, cansas-me deles até que doem, da dor passam a adormecidos, do dormente passam a prazer e continuam.
É para ti que me vergo e componho, é para ti que os meus olhos não piscam e mergulham num mar sem fundo, e quanto mais desço mais luz tenho mais morno fico, passo a tinta ao papel num degusto lento que sabe a muito em pouco tempo.
É por ti que me perco no labirinto, quero-me perdido com a saída à vista, deambulo por entre pensamentos e questões e vou sumido de novo. É por ti que conheço prazeres infindáveis, lugares de volúpia constante, frenesim de versos e música. É por ti que canto com os dedos e danço com a mente.
Será para ti tudo que falta na folha branca, será para ti os gestos futuros dos meus pulsos, será para ti o desabafo, abraço e a culpa,será para ti a vírgula desnecessária, será para ti a próxima linha, o seguinte capítulo, a história, sem fim, sem ponto final
Obrigado

20 de fevereiro de 2009

Destino Improvável


Ele vendia balões perto de um jardim com lago. Ela estudava em Belas Artes mas já pintava.Ele vivia pacato, dois amigos e dois telefonemas da mãe, por semana. Ela vivia cheia, cem amigos e três irmãos.Ele ganhava o certo para pagar renda, comida e cinema. Ela ganhava por exposição, incerto.Ele vendia balões das cores do mundo. Ela pingava no quadro paisagens perfeitas.Ele serve-se do carvalho para não derreter. Ela serve-se do sol para não derramar.Ele guardava os balões às cinco e deitava-se na relva. Ela pintava para lá das cinco e dormia na tela.Ele assobiava o som dos pássaros, de mãos atrás da nuca. Ela sentava num tronco de perna cruzada.Ele de camisa azul e calça branca. Ela de vestido lilás e lenço laranja.Ele viu-a e corou. Ela viu-o, não respirou.Ele de mãos nos bolsos aproximou. Ela parada rejubilou.Ele chegou, pousou como na formatura. Ela desceu, tapou o sol.Ele sorriu e deixou o tempo passar. Ela segredou o fim do pingar.Ele correu, juntou todos os fios, todos os balões e correu. Ela esperou perto da tela, retocou com vermelho.Ele, balões na mão direita. Ela, pincel na mão esquerda.Ele e Ela, abraçaram-se e num pulo só... Entraram na tela e voaram, voaram, voaram, presos por fios e feitos de tinta. Para sempre.

11 de fevereiro de 2009

Delírio

Beija-me a boca
Apetece-me o sabor do teu cuspo
Aquece a língua no meu hálito
Sê, só boca
Escorre-a nos meus lábios
Suga-me liquido, quente
gruda, sem ar
os lábios nos cantos e
os cantos nos lábios
Dança, como fole carnudo
Sem ritmo, escassos momentos
repente de quase união
Nem toque, nem carne
Nem húmido
Só ferve ar por entre arfar
Curto lance, enlace
Junta tudo mais meloso,
gasoso, guloso
Fica, perde a água toda





"BESTAS"

A condição que os faz pequenos é a mesma que os tolhe e deixa agonia à sua passagem.


Estou farto do coitado, estou atulhado da pessoa infeliz de braços cruzados.


Enjoa-me os tormentosos do nada, os que pelos olhos aguados se munem de gente em redor do seu vazio.


Não posso mais com os sorrisos pálidos dos punidos que carregam uma cruz de esferovite pintada da cor do sangue, que nem corre nem verte.


Enfastia-me a fama bacoca e solta de notas esvoaçantes à espera de um molhe de gente de mãos no ar.


Repugna-me quem ilumina o caminho com luz alheia e se sente mais do que a própria pobreza.


Viola-me o triste mendigo da mão do próximo que não tem mão nele, não tem mais do que lágrimas secas que são cordas para prender almas.


Entristece-me o monge falso de véu que estende passadeiras vermelhas para invocar cortesias mascaradas na sua solidão.


Reprovo o pérfido anão em terra de gigantes, porque está de joelhos, socorre-se de braço humano quando tem energia para se erguer sozinho.


Não compreendo o poderoso de bolsos atestados que desfila com o cobre à vista, esperando ser seguido pelo cintilar da ambição.


Escarro o menino pintado com lágrima a deslizar pela face que tenta o lenço perfumado a que não tem direito pelo sofrimento inócuo.


Execro o hipócrita de cabeça baixa que entusiasma o outro com cartazes de clemência.


Abomino aquele que pensa que a ausência faz tremer os presentes. A ausência dos inúteis nunca foi notada.



Grito. Grito alto, de tamanho e paragem.